Calouro aos 40 anos

Calouro aos 40 anos

Quando mudei para o Brasil em 2009 tive dificuldade em encontrar um emprego. Em um momento de frustração em 2010 escrevi o seguinte texto pra Ciência Hoje. Nunca enviei, pois não achei muita graça em reclamar da minha situação —especialmente considerando as muitas benções que eu curtia nesse momento. Mas olha que a frustração era verdadeira. E justificada. Veja só:

 

Há pouco tempo mudei para o Brasil com a ilusão de juntar esforços com o crescimento impressionante da comunidade científica no país. Para minha grande surpresa, em lugar de receber as bem vindas à festa fui imediatamente rebaixado. Meu doutorado, por exemplo, sumiu no momento que pousei no Brasil, como se fosse um item duvidoso apreendido pelas autoridades alfandegárias, ou uma mala extraviada pela companhia aérea. Deu o mesmo com o meu diploma de graduação, e até com o meu diploma de colégio (todos de instituições americanas). A primeira empresa brasileira onde procurei trabalho me informou que não podia me contratar até o meu histórico profissional fosse revalidado pelo conselho regional de biologia.

Beleza. Achei até legal que alguém estivesse interessado em confirmar que os meus diplomas, artigos publicados e histórico profissional fossam autênticos —coisa que qualquer um pode fazer com uma meia hora no internet ou dez minutos no telefone. O que nunca imaginei é que seria um processo tão laborioso. Hoje, um ano depois do que o comecei —Sedex pra cá, Fed Ex pra lá, traduções juramentadas sem fim, correspondência com três consulados brasileiros diferentes e meus gastos pessoais já superando os dois mil reais— ainda não sou considerado biólogo no Brasil. Depois de um processo de 11 meses, e graças à ajuda de vários colegas na universidade onde meus diplomas foram avaliados, saiu sim a revalidação. Tudo bem, então? Nem tanto. Agora estão sendo avaliados pelo conselho regional.... Enquanto espero, o próprio Ministro de Ciência e Tecnologia reclama a falta de pesquisadores na minha área de especialização, e a FAPESP cobra da comunidade científica brasileira mais colaboração com as equipes de pesquisa estrangeiras. 

Um sistema que trata assim aos milhares de científicos de fora que queremos exercer as nossas profissões no Brasil gera uma perda enorme para o país. Também não é uma política nada comum. Não experimentei nada assim antes de vir pro Brasil: não quando supervisei as teses de três estudantes universitários em Equador, não durante os cinco anos que administrei uma estação científica no Peru, não quando coletava espécimes para o Herbário Nacional de Equador. Se os Estados Unidos tivessem tratado aos pais do imigrante russo Sergey Brin do mesmo jeito, talvez ele teria fundado a Google em outro país.

Claro, não tenho planos de fundar uma empresa de 800 bilhões de reais. Tenho ambições mais simples. Quero exercer a profissão que amo e juntar esforços com os científicos, estudantes e conservacionistas brasileiros que estão construindo um novo futuro para a ciência nacional. Ao final, tratar aos pesquisadores estrangeiros como se fossemos calouros é uma política ultrapassada que o governo brasileiro precisa repensar com urgência. Em lugar de obrigar aos científicos estrangeiros a passar por um trote universitário longo e humilhante antes de poder exercer a nossa profissão no Brasil, valeria a pena aproveitar os benefícios que os imigrantes estrangeiros podemos contribuir, hoje, ao desenvolvimento nacional.

 

Ao final das contas o emprego que consegui é nos Estados Unidos mesmo. A ironia é que no museu onde trabalho quase todo mundo é de outro país. O escritório à direita do meu: Nova Zelândia. O escritório à esquerda: México. O escritório da frente: México e Venezuela. O diretor da divisão onde trabalho: Alemanha. A fundadora do centro onde trabalho: Brasil. A colega com quem mais colaboro no museu: Holanda. Das quatro pessoas que trabalham na minha equipe, três possuem passaportes de outros países (Japão, Brasil, México). Não conversamos muito sobre isso, mas todos sabemos que essa diversidade nos enaltece.

Hoje em dia eu também conto com um passaporte brasileiro. Tenho muito orgulho dele. E ainda tenho ilusões de aportar algum dia à ciência brasileira —com vontade, admiração e sotaque de estrangeiro.

The jaguar and its grandchildren

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